Ploft-pum-pim

esfera

Não me pergunte ao certo como começou. O que foi ou onde estive confunde-se com o lugar onde estou agora e onde permanecerei, parece, para sempre. Daqui recebo chuva e calor, recebo a lama que cresce em volta e o chorume que não cessa de expurgar um visual cada vez mais pútrido. Se houvesse narinas, sentiria seu odor e a sua sensação passaria à boca, almoço de carne podre. Apenas observo, não me pergunte como começou. Não sei ao certo. Lembro-me apenas de rolar e rolar e rolar até chegar onde estou e onde parece que vou ficar. Há alguns dias a lama cresceu e embaçou. Vejo a metade do que via antes de amanhecer. Há alguns dias que não chove e é provável que essa lama toda que está em volta afunde ainda mais para dentro, onde ficarei, parece, para sempre.

Um cachorro fareja a cem metros e encontra um osso. É o fêmur de uma cabra que deitou ali há cinco dias, mais ou menos o tempo em que vejo as coisas daqui. Antes, parece, estava em um lugar mais alto, onde enxergava um pedaço de grama verdinha ao longe, bela e jovem, não tão comprida, não tão curta. O temporal lançou-me relevo abaixo e permaneci alguns poucos dias observando meu novo lugar, parece, que para sempre. A cabra agonizou a uns cem metros. A chuva a cobriu de lama e obliterou os pulmões. Já vi um homem morrer assim, em algum outro lugar e em algum outro tempo, agonizando, com os pulmões cheios de água. Se houvesse pernas ou patas como as daquela cabra, rolaria, de curiosidade, a inspecionar o defunto dizendo a ele, Foda isso colega, a chuva detonou com os movimentos peristálticos de seus pulmões. Só que para falar alguma coisa necessitava uma abertura, língua e cordas. Por isso eu só pensaria. Só que pensar, parece, exige cérebro, coisa mais difícil. Decido então que bastassem pernas. Ok. Rolaria com elas até o corpo e contemplaria, sendo olho, havendo pernas, por curiosidade, o corpo aberto diante e ficaria ali, sem mentar nem falar, faltando boca, cordas, língua e cérebro, parece, só havendo pernas e sendo olho, contemplaria os pulmões cobertos de sangue e água tal qual os de Jesus Cristo no dia de sua crucificação. Faria uma prece, houvesse mãos.

Vejo a penumbra de uma nuvem que se aproxima lentamente. Será a chuva que virá? Parece. Percebo chamuscar na pedra à frente uma gota. A íris está bastante ressecada e vai vazar a qualquer momento. Parecia que olhar era pra sempre, agora não. Olhar tudo a frente, o máximo que posso, é o que me resta. É tormentório pensar que a cegueira virá por inteira. Ela, como a morte, trabalha pelas beiradas. Acho, não sei. Tirou-me o domínio do olhar de viés, embaçou-me até não distinguir contorno ou formas. Consolo-me com a lembrança da grama verdinha, talhada pela luz do sol, bem como a borboleta que sobre ela não repousava de ansiedade gratuita. Uma gota estoura sobre a pedra e respinga sobre o canto superior esquerdo da pupila. Desperta a realidade à frente e a lembrança da grama é nada. Olhar tudo à frente é o que me resta.

De repente, a cabra arrasta-se em minha direção. Deitava, agonizava e está viva. Arrasta-se, para um instante e observa o mundo a sua volta. Abre a boca, parece berrar. A chuva engrossa. As partículas verticais e baças impedem-me de ver sequer um fulgor. Vejo a forma da cabra resistir ao tempo. O cachorro volta um instante abrindo enormemente a boca contra o amigo quase morto. A cabra resiste, o cachorro eriça de medo. Não sou humano, não vou chorar. Se a emoção invade o pedaço de terra em que me afundo é que devem nascer flores, gramas, borboletas, crianças como as que vi ontem correr aqui, devem nascer ali essas coisas. E não porque sinto piedade. A lama aumenta, sobe cada vez mais, sobe e me faz boiar. A superfície molecular da poça joga-me numa montanha russa e vejo o céu pela última vez, o relevo de onde caí pela última vez, a grama verde, longe e gostosa, pela última vez e pela última vez a cabra agonizando, o medo do cão esfomeado e a chuva caótica que a tudo embaça. Nada disso importa mais. Desço para sempre, descansar, talvez, na profundeza marrom e agradeço por sua paz acolhedora e morna. Estouro não como o último pingo de água no canto superior da íris enormemente negra, mas como a champanhe vertical e louca em uma festa de cabras alcoólatras e empanturradas.

esfera

Zum Schweigen Bringen

Ingenuamente acreditei nessa fantasia toda. Era-me tão divertido viver e pensar naquilo tudo em que estávamos e que poderíamos continuar sendo. Eu quis. Confesso que é confuso para mim neste momento pensar algo que faça sentido para continuarmos com o que resta de nós. É mais difícil ainda pensar numa razão para que eu tenha deixado tudo isso acontecer. Confesso que não tenho vontade de consertar nada de nada. Não tenho vontade de escutar suas palavras. De sentir o que possas ainda me fazer sentir. Apenas não quero sentir mais nada. Estou farto de não poder ser apenas eu, pura e simplesmente eu. Estou farto de precisar ser algo que não gosto e não sou. Quero apenas a solidão, meus braços em abraços com meu travesseiro e minhas lágrimas a inundá-lo. Sinto-me perdido como sempre, mas desamparado como nunca. Tenho vontade de atirar-me aos mendigos, não por essas companhias tampouco pela sua ou pelas de meus progenitores. Tenho vontade a afundar-me. Não é vontade de vitimizar-me, longe disso. É o cansaço, compreende? Das cenas que se repetem diante dos meu olhos diariamente. Da vida temperada rudemente com sal grosso. Sei que nada farei para mudar, sempre fui covarde. Sei que as palavras que minha mente rabisca diante de minha cansada vista são apenas mais uma das inúmeras tentativas frustadas de salvar-me de mim mesmo, de tentar explicar a mim quem eu sou e como sou. Talvez eu precise apenas de um bom tempo de silêncio sem tentar explicar nada para ninguém e para mim mesmo.