Leben und Sterben

Quantos caminhos ainda será necessário percorrer pra que esteja eu satisfeito comigo mesmo? Quantas palavras a mais, ditas por mim mesmo, tentarão definir-me na tentativa de enquadrar-me nas minhas aspirações de perfeição? Que quero eu de mim? Que quero eu saber daquilo que não preciso saber? A vida é um labirinto sem saída. Percorremos desesperados os sons que escutamos, as imagens que não podemos ver mas que acreditamos existir, na tentativa de escaparmos de nós mesmos. Talvez, ainda, sejamos o próprio labirinto. Passamos a vida inteira tentando entender a nós mesmos, tentando sair de dentro de nós mesmos para nos enxergarmos de fora sob as mais diversas perspectivas. Eu me pergunto, inconformadamente. Que quero eu saber de mim mesmo? Preciso justificar aquilo que é justo, simples e justamente por existir? Eu, às vezes, procuro sentir como uma criança, não com ingenuidade ou coisa que o valha, mas com a leveza e os olhos delas, a examinar, e a examinar novamente, e a continuar examinando algo, até o momento do desinteresse, abandono e esquecimento completo da experimentação do exame. Eu, ainda, às vezes, procuro sentir como um gato domesticamente sociável, que é indiferente aos cenários insignificantes a sua volta, mas que instintivamente é astuto com as suas demandas mais prementes. Eu, às vezes, só procuro sentir, e às vezes, por ironia, só procuro não sentir. Procuro ainda não ser tão primitivo, controlar meus impulsos doentios e animalescos. Sou um humano doente certamente. Não por escolha, ou por seja lá quais motivos. Mas por consequência de todos os milênios de meus antepassados doentes. Quem somos afinal? Continuar lendo

Für Elise wieder

Bouguereau_venus_detailNão quero parecer rude. Aliás, entenda-me da maneira mais plácida com que possas entender aquilo que digo com a paixão dos meus sentidos na doçura mais sublime da sua sensibilidade. O que eu quero é teu corpo. Teu corpo nu. Igualzinho quando nasceste. Quero sentir o sabor luxurioso dos encontros de múltiplos pecados sendo praticados no mesmo ato. Sentir a rebeldia de subverter as divinas leis. Quero-te. Quero sentir aquilo que se sente quando os sentidos estão em desordem, quero que a desordem esteja mapeada para aproveitar-te da melhor maneira. Quero sentir-te, na verdade; com a intensidade que mereces. E quero que me sintas apenas com o sentir. Que entregues-te sem o pensar, que feches os olhos diante do abismo e não o temas. Que possamos apenas sentir os ventos e que eles nos guiem no sentido da mais pura e sincera blasfêmia. 

Das Mädchen

Para Elise.

Eu sempre tive a maior estima por aquela menina. É simples entender o porquê disso. Ela esteve, ainda que não da maneira mais desejada por ambos, do meu lado. Criamos os laços mais fundamentais entre duas pessoas que se amam. O prazer daquelas longas conversas, ainda que silenciosas, mas recheadas de palavras, criaram o conforto, a segurança e o afeto de uma relação calorosa em meio a impossibilidade da calorimetria dos nossos corpos. Fez-me ter, certa vez, o desejo de Dante pela Beatriz, a bravura quimérica de enfrentar meus demônios juvenis.  Dedicar-me-ia uma vida inteira para fazê-la feliz, não fosse os carneiros sedentos e esbaforidos a procura das mais raras e belas flores terem-na arrancado do meu jardim. “Se alguém ama uma flor da qual só existe um exemplar em milhões de estrelas, isso basta para que seja feliz quando a contempla”, talvez poucos sintam com a mesma intensidade o que escreveu Antoine de Saint-Exupéry. Ó minha querida, fostes importantíssima outrora, mal sabes disso, mas há inúmeros desencontros nessa vida, não é mesmo? De você restou a saudade dos lábios, do cheiro, do abraço, das palavras, do lugar ao lado que se faz vazio desde então, da compreensão. Ó céus, quem mais entenderia a jovialidade doentia daquele menino? Enquanto caminhávamos naquele dia, sem saber que nunca mais nos veríamos, fomos felizes e jovens. Se eu soubesse que depois daquele dia teríamos apenas as nossas palavras para sentir, teria escolhido ficar com elas, foram tão belas e pueris, mas interromperia nossos silêncios antes de chegarem os carneiros no nosso jardim. Fostes para mim o significado do amor puro, e isso não mudará por nada, aceitaste a minha natureza, respeitaste a minha visão doentia do mundo, e deste-me apenas amor em troca dos meus pensamentos mórbidos. Amar-te-ei para sempre minha querida.

Do seu Benjamin.