Kindesgefühl

Sentimento de criança

Eu queria levar uma vida solitária em uma cabana ou chalé em uma montanha gelada e coberta por neve. Esse poderia ser meu objetivo para uma década vindoura. Queria livrar-me da sucessão de imagens repetidas ao longo do dia, livrar do cenário velho e cansativo, dos rostos pálidos de zumbis produtivos e incansavelmente tagarelas. Pensado isso, abstraio daí o sentimento que me invade, a paz montanhesca, o frio aconchegante, o calor de uma roupa pesada que aqueça meu corpo, o bem estar de um gole de chocolate quente, a companhia de um livro e uma bela e confortável poltrona ao lado de uma janela com vista para a paisagem alva. As suas variantes também são belas imagens que permeiam minha imaginação, a tristeza momentânea que em certos tempos nos assolam ao olhar atento ao redor e a ausência de vida constatada. Ah, são tantas! Quão belas me parecem. Não merecem ficar expostas no papel. A vida é algo fascinante. Pensar na vida me deixa paralisado. Pensar e fazer uma retrospectiva de sensações, emoções e sentimentos de outrora ao mesmo tempo em que me tira o fôlego e me proporciona certa felicidade, tanto pelos bons momentos, quanto pelos momentos superados, me deixa angustiado por motivos escusos. E o que falar dos sentimentos primeiros, quando ainda nossos olhos são pueris e atentos a tudo quanto é novo? Que coisa bela, de verdade. Há algo mais fascinante que a descoberta infantil das coisas? Há algo mais extraordinário do que a meninil e neófita sede pelo novo de uma criança? Há algo mais fascinante do que aprender? Aprender com os olhos curiosos de criança, sem o lodo que nós que nos consideramos adultos carregamos em maiores ou menores quantidades conosco. Como se livrar do lodo sem aprender a desaprender? Continuar lendo

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Die Selbstbildung

A formação-própria

Parece-me certo dizer que aquilo que há de mais impressionante no conhecer não é ele em si, mas o fato de esquecermos o que sabíamos para dar lugar ao que apreendemos de novo. É impossível olhar da maneira antiga algo que já obtemos mais conhecimento. No máximo, ela se mantém ali como uma forma de rememoração, mas nunca de memoração. Tão-somente para rirmos de como víamos as coisas, para saber reconhecer o erro – aí está um bom uso da rememoração. Mas quando estamos no ato de pensar e aprender, aquilo que tínhamos por certo cai por terra para permitir o reerguer de uma terra mais bonita e caótica. O aprender é um eterno esquecer, decerto, e isso porque temos ânsia pelo novo. O cristianismo (e todas as outras religiões) não permitiu nada além do oposto disso – 13 regras de fé, salmos, leis, sermões, isto é, dogmas. Se há religião, há falta do esquecimento, logo, não há educação, mas apenas doutrinação, que é o esquecimento do esquecimento. O aprendizado só é possível enquanto autônomo, enquanto lúdico.