Glückse(e)ligkeit

A felicidade na tragédia

De repente, sinto que, finalmente, a vida pode valer a pena, todas as penas que eu tiver de sofrer. Literaturas que retratam a positividade da vida, sem nunca se esquecer de fazer suas incursões pelo negativo, pelos fantasmas da vida, por aquilo que a denigre e a faz odiosa, é algo que revigora e se configura como necessário ao extremo nos dias de hoje. Entender a literatura de massa como uma que se põe fora desse plano, pois está sempre inserida num campo moral, em que há o bem e o mal, em que há um final feliz, como se a positividade só pudesse florir num final feliz, em um “pra sempre” estúpido, é perceber os próprios problemas da cultura atual, da condição atual, do pensamento atual, ou de sua falta. Grandes esperanças, de Charles Dickens, é um livro alegre, apesar das várias críticas insistirem que ele é triste, terrível. A vida sempre foi triste e terrível, críticos extraterrestres. O caso é retratar a positividade inerente de um personagem anômalo, que olha para o “monstro” da tristeza e da orfandade e sorri com muito gosto. Este “monstro” é pura idiotice, pois não há monstros de jeito algum – só se torna monstro quando nos convencemos disso. Algo parece sempre se tornar aquilo que o forçamos ser, aquilo que modelamos dele. O mundo deixa de ser receptáculo de mar, terra e lixo, para se tornar qualquer coisa que um poeta queira. Nunca haverá objetividade alguma (ah! como minto, pois não tenho olhos abertos?), pois nunca haverão visões iguais. – O devir-cósmico da criança, que os artistas devêm, segundo os autores, nada mais é que essa alegria que se joga para muito longe da Terra (pois não esqueçamos que nomes de astros devem ser escritos com letra maiúscula), que se joga no Sol, ou nos anéis de Saturno, ou no esquecido Plutão. A literatura de massa, em suas origens, com certeza era cósmica, era geradora de pensamento (o mesmo, com certeza, pode ser dito da literatura fantástica, pois Tolkien pensava), de alegria (pensemos em Balzac, p.ex.) – Não se deve ler essa tal de alegria como pura retardadice, pura boboquice, mas uma que se junta a tudo, que se cola. Alegria triste, chorosa, melancólica, mortífera, sádica, masoquista, psicótica, obsessiva, infantil, juvenil, adulta, senil, moribunda, retardada, boboca, idiota, sexual, transexual etc. Parece que a alegria, aqui, se torna um conceito abstrato demais. Talvez seja mais legal pensar, então, que se trata de um modo trágico de vida: mata-se os filhos numa vingança alegre; arrancam-se os olhos num arrependimento alegre. Epicuro.

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„Die Welle“ und die Überwindung des Faschismus

“A onda” e a superação do fascismo

A ideia de que não há mais como fazer poesia depois de Auschwitz, hoje, nos parece mais do que absurda. Nem tanto para aqueles que viveram movimentos como o “Diretas Já”, p.ex., pois este clima do século XX ainda ferve em suas veias. Mas, para nós, nova geração, geração pertencente ao século XXI por excelência, que possui, mais forte que nunca, a capacidade do esquecimento, apesar de tudo estar contra esta, não sentimos mais esse tipo de coisa, somos contra na verdade. No entanto, esquecer não é sinônimo de superação completa, é parte desta. Até que ponto pode ser o esquecimento um meio para novas possibilidades? Esta é uma questão que se põem aqueles que pesquisam história principalmente, pois há sempre essa questão da memória embutida nela: até que ponto (re)lembrar é útil? No entanto, não podemos nos deixar iludir, pois agir contra os movimentos da história, movimentos de devir essencialmente, seria tolice. O fascismo não acabou porque Hitler morreu e a Aliança perdeu a guerra. Aliás, sequer podemos chamar isto de fascismo, pura tolice, como se o que ocorreu em meados de um século qualquer fosse mais importante que qualquer outro tempo em algum ponto da história. O fascismo não é novo; e nós só não temos relatos de coisas “terríveis” (igualmente ou até mais) por fatores que vão desde o analfabetismo até a própria destruição dos documentos históricos (leia-se, qualquer escrito sobre uma guerra. Tomemos como exemplo a grande epopeia ateia de Lucano, “Farsália”). Aliás, pensemos sobre esta obra mesmo e analisemos o que o (pobre coitado do) Adorno quis dizer sobre a morte da poesia: o jeito de Lucano de denunciar a guerra e o derramamento desnecessário de sangue é feito através da própria poesia, e isto não é novidade. Herdamos dos latinos este pavor e tendência à guerra, pois, certamente, não é dos gregos que absorvemos isto. Enquanto a guerra era a mãe de todas as coisas gregas, a guerra era a proporcionadora da paz latina, como disseram os poetas de seus tempos. Nos tempos de hoje, no entanto, qualquer morte é proporcionadora de explosões. Temos acesso demais, notícia demais, sangue demais. Não prego a morte das guerras, pois o que seria de nós sem nossos jogos, o que seria do homem sem seu espírito agonístico? Não podemos ser tão egoístas a ponto de tirar uma das maiores virtudes do homem, que é o seu desejo imperialista (ouso mais ainda: instinto imperialista). Mas, é por causa daquela demasia toda de todas as coisas que pensamos que o momento presente é o onde tudo será resolvido definitivamente. Numa época em que nos gabamos de tanto avanço, como pode ser que retrogradamos ou não mudamos aquele velho instinto da dita “época das luzes” de acreditar que o fim do mundo é sempre iminente, que Satã irá chegar com seus sequazes, que o estrangeiro de hoje será a ruína de todo o mundo, de todos os tempos etc.? Todo esse espetáculo estúpido, tolo e inútil de morte de todas as coisas é nada mais que consequência de uma época de fraqueza extrema: “Sofremos as piores dores! Auschwitz chegou! Quem poderia esperar isto do Homem? Declaro a morte de tudo, pois não mais aguento a minha própria existência!” – Eis, então, que chega-me à consciência a luz daquilo que representa o maior amor da sociedade, o maior amor dos filósofos e cientistas da negatividade: inconsciente, negação da vontade, igualdade e “morte”, todos conceitos voltados para aquilo que é mais anti-humano e que, ainda assim, representa uma utopia; e o que quer a sociedade, senão utopias? Que os filólogos e historiadores continuem dizendo que o epicurismo surge apenas em tempos de trevas e crises – e que continue surgindo, pois não há afirmação e felicidade maiores.