Leiden

Sofrimento

Hoje acordei com a certeza de que a felicidade deve ser passageira, o que de fato interessa ao ser humano é a dor e o sofrimento, a tristeza por assim dizer. Eu mesmo ao escutar um violino chorar sinto-me extasiado. Quão mais triste é o ser, mais nobre ele é. Quão maior a doença, maior a alegria de vida. Foi o que um dia pude apreender de alguém que passou por mim e tinha olhos de mundo, longe, onde tudo quanto é o que é existe com um pundonor que é difícil não se sentir alegre. Isto faz crescer ainda mais a vontade de viver das coisas, ainda que todos os filósofos insistam: “É impossível!” – quantos deles souberam falar isto enquanto olhavam para esta tal coisa impossível e pisavam em um chão diferente de seus escritórios, de suas salas de aula, sentados em qualquer outro lugar que não fosse a cadeira que nunca erra, ainda que contribua em erros? Não dá para confiar naquilo que vemos escrito, pois a chuva não permite que o escrito se mantenha; é a felicidade, passageira e, por isso, sempre voltante, da própria natureza não saber se lembrar. Nem gregos nem romanos souberam venerar isto tudo com a mesma intensidade que eu possuo hoje, da qual tenho uma certeza absoluta e que me angustia não saber nomear um deus para isto: a felicidade da vida é saber adoecer. Os conhecedores gritam-me de novo: “Que tipo de realidade é essa que se afirma pelo negativo? Você não vê as coisas!” – Mas, quem falou que a tristeza é uma negatividade? Ah, vida, que triste quem não soube ser. Hoje eu acordei. Amainaremos ou encresparemos as velas da nossa alma ao sofrimento? Nos comportaremos feito vermes ou escolheremos viver nobremente sem a ignóbil felicidade deles que ao sentir aproximar-se a tempestade encolhem-se mais que depressa?

Autores: Sven; Gean.

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Möglichkeit zur Glücklichkeit

Possibilidade para a felicidade

Numa aula qualquer, no meio de uma interpretação de uma peça de teatro de um autor qualquer, alguém diz que a felicidade dos autores é infantil, esse professor qualquer responde: “É interessante você falar sobre essa ‘felicidade infantil’, já que o autor, aqui, não dá muitas chances para esse tipo de felicidade; enquanto que a criança tem sempre essa possibilidade para a felicidade, ela não tem medo de ser feliz.” – Isso não só soa como é bastante bonito, mas apenas num nível superficial, pois o que se configura não é tão simples assim. A criança não tem a possibilidade para a felicidade, ela sequer conhece a felicidade. Pergunte a uma criança pobre e a uma rica: ambas dirão não saber o que é de fato a felicidade, ou dirão coisas muito vagas. Mas então seria o caso de dizer que só se pode sentir aquilo de que se tem conhecimento? Não, mas também não podemos dizer que o nosso conceito de felicidade seja aquele que pensamos ver quando a criança está sorrindo. Não é raro ver crianças que estão chorando na rua, mas nem por isso pode-se dizer que estão tristes. Trata-se de relações, agenciamentos. Uma criança sorri ao receber um chocolate e chora ao receber um susto porque suas potências reagem de tal forma que a permite dessa forma agir, sendo que nem toda criança age dessa maneira quando recebe um chocolate ou um susto, afirmando a pluralidade. Esquecimento é muito mais importante do que uma possibilidade, pois esta palavra implica algo ser passível de acontecer, quando, de fato, acontece, mas nem sempre se percebe. Quando Epicuro fala de uma vida sem tristeza, de puro prazer do sábio, ele não quer dizer de uma tristeza ou desprazer do jeito que nós entendemos, mas está muito mais ligada à ideia de um esquecimento ativo daquilo que nos impede de ter uma vida positiva. Epicuro é muito infantil – e assim foram também seus seguidores, como Lucrécio, aquele que acalmou o espírito latino, tal qual aquele o grego. Felicidade imperceptível – disso pouco sabemos, pouco temos permissão de saber em nosso tempo – Heiterkeit –, justamente por pensarmos que aquilo que ocorre na criança é necessariamente o que ocorre nos adultos, transferindo todos os conceitos que criamos para nós para dentro de um campo que nada tem a ver com isso.

Warum lügen?

Por que mentir?

Tenho para mim que ser feliz é ser imbecil
É viver uma imbecilidade alegre
É esconder a triste infelicidade
Tenho para mim que isso de que falo é mentira
Porque estou feliz
Porque minto que estou feliz
Tenho para mim que todos mentem para mim
Isso é triste
Isso não me deixa feliz
Tenho para mim que a mentira não tem alvo
Ela é para os outros
Ela é para si próprio
Tenho para mim que mentir é fundamental
Para poder viver em paz
Para poder viver feliz
Tenho para mim que nada do que falo importa
Por não estar mentindo
Por não estar mentindo