Kierkegaard und der Zusammenhang mit der Angst

Kierkegaard e a relação com o medo

Kierkegaard dirá que a maior paixão do homem é a fé, segundo ele, é possível ser feliz sem a fé, mas nunca se poderá ser tão feliz quanto aquele que tem fé. Mas a fé é o maior paradoxo humano: só há fé se a pessoa acredita no paradoxo, ou seja, Kierkegaard diz e nos chama a viver o paradoxo. Mas viver o paradoxo já é um viver cheio de temor e tremor, viver no silêncio de Abraão, na angústia de Isaac. Não seria possível pensar que, mesmo sem a fé, a vida já não é uma angústia? Então, nesta linha, Kierkegaard não nos chama para a fé, mas para a vida; Kierkegaard fala em códigos e junto a uma ironia socrática bastante presente em seu escrever. Ele se cuida de mostrar, em três questões, os paradoxos da fé.

– Há como justificar o assassinato do próprio filho, tendo como motivo o chamado de um homem lá em cima que nada mais quer que provar sua fé? Há como justificar o silêncio de Abraão em relação à família? Há como justificar a existência dum dever moral, e até ético, absoluto para com Deus? –

Tudo isso é explicado pelo fato de uma única coisa: a fé – mas, ao mesmo tempo em que ela é a resposta para estas perguntas, ela já não é resposta pelo fato de ser um paradoxo, isto é, há uma resposta, mas ela não é e nunca nos será inteligível pelo fato de tais ações não partirem do geral, isto é, da moral, mas partir do âmbito do absoluto, do divino, do Indivíduo: “o interior é superior ao exterior”, no âmbito da fé. É assim, portanto, que um crime se torna algo santo; o silêncio, algo que ultrapassa a ética, uma vez que ela diz que o silêncio é mau, devemos sempre estar em constante ato de fala e ação, pois o inerte é prejudicial e sem utilidade; a ambição de cumprir algo que foge ao sensível: a fé que lhos permite.

Mas como o medo poderia ser inserido dentro de tudo isso? Seria possível pensar que Abraão sentiu medo durante e depois do ato de imolação do próprio filho? Ou será que a fé e a confiança em um Deus são capazes de dar a segurança necessária para que alguém faça algo tão inusitado quanto e não tema? Seria possível também pensar acerca da conseqüência do silêncio de Abraão para com sua família, principalmente com Isaac?

É impossível dizer que eles não sentiram receio: Abraão esperou tanto para que Deus lhe permitisse ter tal filho, para então tê-lo de matar? Abraão receou nunca mais ver o filho, sabia que ele corria essa chance ao escutar a voz do além. Desse modo, o receio é a priori, ou seja, Abraão não precisa sentir o matar o filho para sentir algo em relação a isso, nesse caso, o receio. Idem para Isaac, uma vez que o silêncio de Abraão é justificado apenas no âmbito do paradoxo, logo, num âmbito ininteligível para qualquer outro que não Abraão ou o próprio Deus. É impossível dizer que Abraão teve fé total em Deus antes e durante o ato – é exatamente essa uma das críticas que fará Kierkegaard a Hegel que dirá que Abraão é o pai da fé.

“O dever constitui-se tal quando é referido a Deus, mas no dever propriamente dito, não entro em relação com o divino”, diz Kierkegaard. Ora essa, se aquilo que Abraão tinha de fazer era um dever, esse dever não tinha um fim em Deus, nem podia, assim como “sucede com o dever de amar o próximo: é dever, na medida em que este amor está referido a Deus; no entanto, no dever, não entro em relação com ele, mas com o próximo que amo”. Logo, o fim estava no próprio ato, Abraão não fez tal sacrifício para Deus, mas para si mesmo, para poder, a partir de si mesmo, provar que em tal ato há um amor e devoção para com Deus. Isso nos remete à primeira pergunta feita por Kierkegaard, que trata da suspensão causal da moralidade em relação a Deus. Essa suspensão seria possível por si só ou algo a mais a impulsionaria? Bem, um homem não se torna um cavaleiro da resignação infinita a partir do nada, é preciso da fé, antes de tudo, é preciso a suspensão de toda e qualquer razão ou desejo de racionalização de algo que parta desse particular. Mas a grande problemática do cavaleiro da resignação reside exatamente nesse estar-particular, estado em que se está acima de qualquer moral e ética, momento em que tudo que parte de você é mais válido do que aquilo que lhe foi instituído como o certo, porque esse certo é geral, não particular. Essa sensação de temor e tremor por não poder se exprimir, por se tornar o próprio indizível, ou seja, você não fala ou escreve mais o indizível, você se faz indizível e, por sê-lo, afastado de todo e qualquer possibilidade do geral. Há o receio da morte física, por não aguentar a loucura do indizível, e identitária, acabando por perder o que há de dizível ainda.

A partir destes receios, que são medos a priori, podemos pensar no próprio medo do medo. Quando os receios são experimentados há sempre a consciência de que o que virá a seguir é o medo, o receio que é medo a posteriori, fazendo com que se sinta medo de sentir o medo em si, impossibilitando que a tarefa divina se cumpra. Abraão, então, não sentiu medo de falhar, mas sentiu medo de sentir medo e, assim, falhar. Por isso, para manter tal medo do medo dentro dos eixos, foi preciso não falar, e se falasse, falaria apenas a verdade e nada mais, justamente porque fala uma língua estranha. E que verdade é essa? É apenas uma: “Meu filho, Deus prover-se-á ele próprio do cordeiro para o holocausto”. E, através do absurdo, foi o que aconteceu: Isaac não foi morto e Deus proveu um cordeiro para o holocausto.

Seria interessante aqui fazer uma ponte com Lucrécio. Em seu belíssimo e extenso poema, De rerum natura, Lucrécio, já no livro um, expõe os “tão grandes males” que “pode a religião persuadir”. É interessante pensar que é exatamente o que Kierkegaard diz: apesar de a fé ser algo maravilhoso e ser o cimo da paixão humana, ela nos levou a tantos males, tantas angústias, tantas mortes, tal qual a imolação do pai “da virginal Trívia”. Mas esses tantos males são resolvidos, para Kierkegaard, através do absurdo, mas é o absurdo apenas de Abraão e outros iguais profetas, uma vez que o próprio Kierkegaard diz que se uma pessoa aparecesse e dissesse que Deus lhe apareceu e ordenou que imolasse o próprio filho, ele seria imediatamente mandado para um manicômio. Quando Lucrécio diz que a religião persuadiu a muitos males, ele quer dizer também isso: através da crença no absurdo da própria fé, ela levou muitos mortais à tolice. Daí a indiferença do epicurismo em relação aos deuses.

Abraão, portanto, é o símbolo do absurdo que não pode ser repetido, é o feito único, tais quais as ações de Aquiles Pelida e o regresso de Ulisses para casa os quais nunca mais poderão ser feitos – seja ficção ou não, mas mais pelo valor de seus atos.

Quanto mais se pensa a fé, mais ela se torna estranha e absurda, afinal, essa é a sua forma verdadeira. Não se consegue estabelecer a fé em si, mas nos parece possível, até certo ponto, dizer sobre o que há durante o ato movido pela fé, no caso, de Abraão.

Anúncios

Die Kindheit

Este post é apenas uma síntese daquilo que é uma pesquisa que estou fazendo com meu professor acerca de um novo conceito filosófico. Foca-se exatamente num ponto crucial dela: o símbolo da criança e sua relação com o medo.

_

A infância

A criança é o símbolo da inocência. Como age o medo na criança? Ele age de uma maneira muito interessante, uma vez que a criança ainda não possui o aparelho psíquico totalmente desenvolvido, principalmente por parte do superego. Dessa maneira, é muito normal que, mesmo após a criança ter levado uma bronca da mãe, ela vá botar o dedo na tomada. Mas seria isso apenas ignorância? Há algo além disso? Há muito mais além dessa simples ignorância infantil: há o desejo, a vontade de descobrir, esse não-medo, essa atambia da infância, defronte ao desconhecido, essa ânsia pelo novo e pelo que é palpável: isso vai muito além de uma simples ignorância por parte da criança.

Aos poucos, quando a criança passa à adolescência, há poucos resquícios dessa infância. Eles são, geralmente, respondidos com muito reforço negativo (usando um pouco dos conceitos behavioristas) por parte dos adultos que o cercam, fazendo com que o adolescente, enfim, vire adulto. Mas o que acontece com o medo nesse processo? Ele passa por um processo de amigabilidade: o medo não é mais medo, ele agora é aceitado como parte inerente do ser ontológico, por assim dizer; ele começa a receber muitas risadas de si: ora essa, o que acontece com todo sentimento quando é debochado? Tais quais as morais hipertrofiadas, elas são vaidosas e não permitem o riso delas. Mas o adulto ri do medo: o medo se encolhe. Desse modo, o adulto consegue ultrapassar seus medos, conseguindo se desenvolver cada vez mais. Errado.

Quando se chega à fase adulta, o medo se transforma num simulacro: ele é apenas aparência. A partir de experiências passadas, o medo recebe uma forma muito maior e monstruosa do que ele realmente tem: as pessoas costumam a taxar as coisas “ruins” como grandes demais: demasiado medo do medo, medo do monstro. Dessa forma, o medo é tornado amigo e parte inerente de si (não é mais preciso provar que não há medo para os outros), logo, não há mais a necessidade de ultrapassar aquilo que o medo impõe como limite, mesmo ele sendo apenas aparência de monstro.

Ora essa: a criança tem a coragem de ir além do medo, o adulto possui a amizade do medo: o que devia haver além de um movimento retrógrado à infância que permitisse a procedência como adulto?

“If I let you go, do you think you could fly?”