Quo vadis

Quint Buchholz - Quo vadis (1985)

Por uma espécie de escrófula corrugada à maneira de uma rosa dos ventos infinita, riscos fortes e amenos direcionando e se acabando para dentro, os amenos nem sempre alcançam-no, gregotins esparsos, empurra para fora um vento outonal, cansado e friofresco.

— Você é realmente um merdão. Acha que é mais que o entulho de vísceras que te enforma? Realmente, o homem é um animal muito mal domado, pouco afeito às suas fraquezas, limitações, por isso não consegue ser feliz. Não é você quem se acha o grão senhor das atenções? das audições? dos conselhos? Pff, faça-me o favor, quem é que não sabe o quanto você chora de noite por qualquer pessoa que te deixa falando sozinho? Acha que ninguém? É o que você realmente acha? Mas isso está escrito no teu rosto! Será possível que você pense que o que te ronda por dentro não te sua pra fora? Essas sirenes berrando de você, sirenes da agonia, te denunciam de modo que qualquer criança pode te desvelar em poucos segundos. Pensa, então, que o câncer que te enfurna em si mesmo não faz sua língua mais gorda? Suas palavras são adiposas e colam ao menor toque, visgo sujo, voçoroca bocetenta. Você não vale o cuspe que tua mãe podia ter engolido do falo do teu pai. Não valeu a pena você ter vivido. Não dá. Você é o eterno quererseroquenãoé…

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Leichname

Aluga-se um coração, ou ainda, aluga-se um cadáver adiado, que traga consigo o espirito do ator, que acredite na cena e interprete o espetáculo com maestria, ou simplesmente como ele deve ser, ou na melhor das hipóteses, com criatividade, riso e leveza. Procura-se aquilo que se procura, na vida. Procura-se uma razão para procurar, um motivo para se alugar. Procura-se autocontrole; para não entregar aos diabos a própria sanidade, para adiar um pouco mais o cadáver que aos poucos vai perdendo a capacidade de encenar e fingir. Aluga-se um cadáver; para juntos dividirmos a mesma cova. Procura-se as palavras certas para dizer: meu corpo e minha mente, cansados, precisam enamorar-se como dois apaixonados, para que, mesmo sendo um cadáver adiado, eu possa um dia deitar-me eternamente com os dentes à mostra.

…und noch ein Bisschen

E um dia escrevo que mais vale viver o amor que o escrever. Em seu corpo, espasmos de altitudes, longitudes, profundidades, pelos garços te envolvem, o pincel se perdeu, transviou-se, me fez jocoso medo de não saber ainda o que há em você integralmente, falsamente integralmente. O ar que algum dia me tranquiliza, invadido de ondas, me continua, e contigo torvelinhos furaconescos nascem em dança, grinaldam suas faces, saem janeiras de suas falas e rojões intensos de seus cus, assim se brinca melhor. Subimos, clichemente, um monte de onde podemos gritar pelas parcas pessoas que passam na calçada da esquerda, nenhuma delas nos ouve, assobio, faço pássaros saírem de minha boca, perseguindo o encalço deixado por algum deles, ninguém nos ouve, nem o excesso. Eu tenho medo de olhar pro céu, de cair pra cima, de acreditar existir coisas tão grandes bem em cima de mim — é o que você me diz. Te faço deitar as costas e mirar o céu, ponho minha mão esquerda sobre tua destra, e você ri universos tectônicos desmedomente, um balão cativo te lembra de seu medo, você tira sua mão debaixo da minha e a segura, palma a palma, mão suada, quase nada calejada, mão de moça segunda minha bisavó, tem que trabalhar, calejar os dedos, e ela, de alguma forma, é suada e ríspida, não sente mais medo do balão. Sonho que poderia te beijar, mas tua coragem já vale sexos. Não dá para escrever o amor, sinto-me um inútil, não tenho sequer gavetas onde jogar no fundo os papéis, um inútil que agora o sente mais forte que nunca e sentirá mais forte no presente. Nenhum excesso nos atrapalha; sua felicidade me contagia, vírus fedorento, esquete de auroras, vermelhidão matutina, tuas vísceras fazem barulhos altos vez por outra, perna machucada, é esplêndido tocá-la, átomo por átomo teu sorri e me cocegam, me invadem, destroem todos os símbolos, formas, sonhos, penas. Você me instaura corvos, urubus, de uma negritude fatal, carnal, fauceal, o chão se sobreleva sob seus pés descalços, os quais passa em meus rostos, ombros, omoplatas, antebraços, braços, mamilos, umbigos, negritudes pintam o branco para tingir horizontes.